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Revista Praxis Nº 4

... só duas palavras
Maria Armanda Saint-Maurice

“As palavras mudam de sentido ao longo do tempo”, diz-nos Manuel Alte da Veiga no texto da oração de sapiência proferida no ISCRA sobre “obediência e autoridade”. A etimologia diz-nos que estes conceitos provêm da predisposição para a escuta, da acuidade da percepção, da disponibilidade para o seguimento. Com o prof. Alte da Veiga descobrimos a dimensão libertadora da obediência. A dimensão libertadora é também tratada, de outro modo, por Georgino Rocha. O prof. Georgino Rocha fala-nos da “função dos bens e consumo responsável”. A Doutrina Social da Igreja fornece-nos muitas chaves para ler e agir no mundo de hoje, em que o consumo “é um dos ‘motores’ da economia actual”. Um consumo que se torna consumismo alienante e mola do empobrecimento dos países pobres. A DSI ajuda-nos a permanecer sujeitos no jogo social e a usar a nossa liberdade para impor mecanismos de comércio justo e equidade. Deolinda Serralheiro, a directora do ISCRA, debruça-se sobre o pensamento do teólogo Rémi Parent, e também ela, de alguma forma, incide sobre a dimensão libertadora da autoridade, desta feita a da presidência das celebrações eucarísticas pelos ministros ordenados, bispos e padres. Que actuam in persona Christi, descentrando-se em proveito de Jesus Cristo, reenviando a Ele como grande Outro e, também aos outros, que são o povo cristão. Ângela de Fátima Coelho é uma nova colaboradora da Praxis e, no seu texto sobre a Aliança entre Deus e o homem, passa em revista a história do encontro perene entre o Deus do AT e do NT com o seu povo e com a sua Igreja: onde a autoridade de Deus é a libertação do ser humano. A irmã Ângela Coelho é médica e finalista da Licenciatura em Ciências Religiosas do ISCRA: assim damos seguimento ao projecto inicial de a nossa revista inserir, também, textos dos alunos mais “notáveis” da Escola. Luís Manuel Pereira da Silva, esse mais um dos docentes do ISCRA que colaboram neste número da Praxis, apresenta-nos o eugenismo como “rejeição da minha finitude tornada presente no outro”. O eugenismo tem uma história mas permite também a sua leitura pós-moderna. Que acaba por ser a de uma forma de expelir o outro (tornado imagem da minha finitude) da minha realidade: o outro já não é o meu próximo mas sim um alienus, cuja eliminação me parece plausível. Aqui a minha capacidade de percepção do outro, de “obedecer” à realidade, que é finitude tanto em mim como no outro, é posta radicalmente em causa. Finalmente, sobre a “sedução dos dualismos”, José Eduardo Franco, historiador, e Vítor Vaz Silva, cientista, interessam-se por Dan Brown, autor do Código da Vinci e dos Anjos e demónios: nada mais nada menos do que o herdeiro dos romances oitocentistas e do início do séc. XX anticlericais e anti-semitas, sintoma de uma onda actual de anticristianismo e da instauração de uma “literatura da remitificação”. Com D. Brown estamos nos antípodas da obediência libertadora, estamos na criação de subprodutos culturais altamente mistificadores e, portanto, altamente escravizantes.

 
 

 

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